Alanis Morissette dando uma boa lição

Esse simples vídeo feito pela Alanis Morissette me fez sair da inércia e voltar a blogosfera. O mercado fonográfico estadunidense está repleto de uma vertente black-music-amelódica-hip-hop-rap que atingiu até os artistas mais desprovidos de melanina como Justin Timberlake.

Umas músicas macarrônicas, incompreensíves e inassobiáveis (viva o neologismo) floreadas com clipes de requebrados sinuosos e anti-ergonômicos. Sem contar nas exibições de luxúria e riqueza dos rappers que colaboram com samples na música ou apenas ficam gesticulando no vídeo fazendo uma pose de uma mistura de gangster com Don Juan.

Mas vamos ao tal vídeo:

Hm, não reconheceu a música ? Prestou atenção na letra ? Independente da resposta, eis a música original executada pelos seus intérpretes originais:

Sim, Alanis gravou ‘My Humps‘ do Black Eyed Peas. Como o vídeo é bem fresco, ainda não teve repercussão, não sei dizer muito a respeito de como/quando/etc. Mas certamente não deve sair em algum álbum pois é uma sátira muito bem feita pela Morissette a essa linhagem black-music-amelódica-hip-hop-rap pois nos EUA praticamente não se vende mais nada que não seja desse estilo.

A letra da música na versão da Alanis ficou intocada. Só ganhou um arranjo típico da discografia da artista. Mas ouvir ‘My Humps‘ em outro compasso e sem um intenso estímulo dançante evidencia a banalidade da letra da música e a excessiva conotação sexual desse gingado que já foi hit nas paradas de sucesso. Marketing viral ou não, brincadeira inocente ou não, ainda assim me parece um testemunho artístico que clama ‘ei, essa música que vocês estão fazendo é péssima‘. Duvida ? Leia você mesmo a tradução da música para o português. Alanis não poderia ter escolhido outra música melhor. A sátira não está só no arranjo da roupa mas também nos gestos, coreografias e figurino de ‘menina má’ que Morissette apresenta no vídeo: mistura tão incompatível com o estilo da intérprete que por si só é risível para quem a conhece.

E essa queixa da Alanis Morissette não fica da cintura para cima do nosso planeta. Cá em terras brasileiras Tom Zé intrigado com essa juventude que ouve algo que talvez seja música mas certamente não é canção resolveu então fazer um álbum de acordo com esses preceitos. O resultado é o disco Danc – Êh – Sá, com músicas de batidas fortes e vocais de palavras sem sentido. Como disse Chico Buarque apud Tom Zé no ‘Programa do Jô’ (entrevista incompleta), ‘a canção morreu’: é o fim da melodia.

Mas há sim algumas coisas boas para se tirar do baú black-music-amelódica-hip-hop-rap. Aponto unicamente – por falta de lembrança de outros exemplos – a música She’s a man eater da Nelly Furtado (veja a letra e a tradução). Não tenho técnica musical o suficiente para argumentar o por que da escolha, mas suspeito da boa qualidade do backing vocal e da letra que é um bem humorado resgate de tema da música quase homônima e clássica dos anos 80 gravada pelos Hall & Oats (veja a letra). Música essa que reside na categoria ‘aquelas que todo mundo conhece e ninguém sabe o nome‘.

Por hoje é só pessoal.

7 Respostas para “Alanis Morissette dando uma boa lição”

  1. Vinícius Alves diz:

    Adorei a crítica da Alanis. Adoro o trabalho dela e realmente quem a conhece vê gritante a crítica nessa regravação.
    Quanto ao Tom Zé, eu soube desse CD, ainda não o escutei. Lembro de que um dos pressuposto para ele elaborar algo nesse estilo foi sair perguntando sempre como as pessoas gostavam de ouvir estilos como “Pagode”, “HipHop” [como B.E.P.] etc, que não tinham nada a lhes acrescentar e elas respondiam “Por causa da melodia que é bacana. A batida é legal.” — daí ele fez aquele CD nessa maneira… Ao melhor estilo Tom Zé de ser, não é verdade? Conheço pouco o trabalho dele, mas escuto falar e já li genialidades feitas.
    Enfim, volte a bloggar!

    Abraço,

  2. Breno diz:

    Bom… o que dizer?
    Está rolando um preconceito reverso aqui no blog. Por que?
    Ora bolas, não é sor por que a múica é hip-hop que é ruim, ou banal. E Deus sabe o quanto eu deprecio o hip-hop. mas vamos ao mérito da questão:
    Black-Eyed Peas. Voc~es conhecem bem a banda, a idéia que ela costuma pregar? Existe idéia? É sempre bom pesquisar antes de comentar. E foi ouvindo a vox populi, que curte o “batidão” (no caso a minha irmã), que vim por acaso a conhecer melhor esse grupo. Nunca pensei que fosse usar esse conhecimento, mas enfim…
    No caso, minha irmã comentou sobre a banda exatamente quando por algum acaso passava em uma TV num restaurante em que jantávamos (se não me engano) o clipe de “My Humps”. Ela disse “Essa banda é muito legal. Se não fosse hip-hop era capaz até de vc gostar dela.”. “Por quê?” perguntei, obvamente espantado. “Eles são inteligentes. Fazem muita crítica ao mundo do hip-hop, cantando o próprio hip-hop. Essa música, por exemplo, eles fizeram pra sacanear os rappers que ficam exibindo riqueza e mulheres gostosas no clipe, e nada além.”.

    Pois é. É hip-hop. Tem batidão. Mas é uma crítica do Black-Eyed Peas ao mundo pop. Logo, em termos de inovação, tudo o que a Alanis fez foi mudar o estilo musical e satirizar um vídeo que já é uma sátira de muitos outros.

    Engraçado como a gente ás vezes se pega na contra-mão de nossas próprias idéias… ams enfim, um grande achado esse vídeo!
    Keep blogging!

    Abraço,

    Breno.

  3. ayublog diz:

    Muito bem notado Breno. Apesar de não ser letrado em Black Eyed Peas e nem em hip-hop, já ouvi esse tipo de elogio ao grupo: de que eles fazem uma boa revisão do gênero e trazem outra proposta.

    Talvez uma prova disso seja o sample do Sérgio Mendes e a brasilidade da música ‘Mais que nada’ [0] gravada há pouco tempo pelo grupo. É uma mistura que exige conhecimento e talento para se fazer e foi feito de forma harmoniosa. Ponto positivo para ele .

    Mas ainda fico imaginando a situação da Alanis, sufocada num mercado das cantoras ’sexy’ com beat hip-hop. Não é a toa que ela no clipe-sátira chega a usar o mesmo corte de cabelo da vocalista do Black Eyed Peas.

    E esse modismo das ’sexys’ já tem causado danos ao ‘American Way of Life’. Tropecei um dia desses com uma reportagem sobre um estudo científico que cruzava a queda da auto-estima das meninas estadunidenses e do aumento de distúrbios alimentares por conta dessas letras de música e visual das artistas ’sexy’.

    Há um grupo conhecido como ‘Pussycat dolls’ [1] que canta no seu principal hit:

    ‘Dont cha wish your girlfriend was hot like me’
    (Você não gostaria que sua namorada fosse ‘gata’ como eu ?)

    E isso tem reforçado a ditadura estética a qual adolescentes em formação estão imersos, fazendo-os crescer em um ambiente inóspito. E a letra de ‘My Humps’ não é muito distante desse tipo de conteúdo.

    Então ainda fico com Alanis… talvez satirizar Black Eyed Peas seja fogo-amigo, mas essa linhagem black-music-amelódica-hip-hop-rap-SEXY que joga para fora das playlists qualquer coisa como a própria Alanis deve sofrer uma pisada no freio.

    [0] http://www.youtube.com/watch?v=j_0LxnmL3OE
    [1] http://www.youtube.com/watch?v=MDP38jFXIiI

  4. Breno diz:

    Concordo quanto a crítica ao gênero. Ficou minha ressalva ao grupo mesmo.
    E de fato, a releitura da Alanis foi bastante impactante, exatamente por destoar totalmente do universo black-pop-bla-bla-bla.

  5. Tatiana Oliveira diz:

    Ayub … feliz por você estar com o blog de volta !!!

    Alanis, de fato, foi super inteligente. Se a idéia inclusa no vídeo foi a crítica sobre a onda do “hip hop mania” que se propaga pelos EUA, ela acertou em cheio.

    Adicionando mais um fato a idéia da “baixa auto estima dos americanos”, citado por você, tenho que contar o que vi na tv outro dia desses.

    Assistindo a MTV numa tarde dessas me deparei com um programa banal chamado: MADE. Pessoas insatisfeitas com seu modo de ser, recebiam a ajuda de um “personal transformador” pra se tornarem outras pessoas.
    No episódio que eu assisti, a menina queria ser rainha do baile de formatura, só que todos a odiavam no colégio. De grunge, ela se transforma numa patricinha fina e educada, ganhando o apoio de todos que a detestavam e por fim, consegue ser a rainha do baile de formatura.

    Outro programa também é exibido pela MTV, de uma idéia ainda pior, chamado Why Can’t I Be You onde pessoas insatisfeitas com a sua própria vida, escolhem alguem que desejariam ser para transformarem-se. Tudo espelhado em características como beleza, ser popular ou não, etc.
    No episódio que eu vi, um entregador de pizza, aparentemente “gordinho” e bem tímido, queria ser igual ao dono de um apartamento onde ele sempre fazia entregas. O apartamento estava sempre com festas e lotado de pessoas, e seu dono era magro, bonito e elegante. O cara das pizzas desejava virar o moço do apartamento.

    Deprimente isso não é ?

  6. Ayub diz:

    Põe deprimente nisso… e pensando bem, os mesmos problemas e mecanismos ocorrem aqui desde o ‘Vai descendo na boquinha da garrafa…’.

    Antes dessa era, pelo menos na minha experiência pessoal, não lembro que ’ser bonita’ era sinônimo de loira. Mas hoje então… nem se fala.

  7. Ayub - pensamentos de um homem de 4 letras Releituras #0 « diz:

    [...] esquecer da fantástica releitura da Alanis Morissette do Black Eyed Peas. Posted in Tubeteca, Arte & [...]


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